Vivências de mulheres do interior baiano inspiram espetáculo "Sertão Sem Fim"

O espetáculo presencial acontece no Teatro Sérgio Cardoso em conformidade com todas normas de segurança.


Cena de Sertão Sem Fim - Foto de Keiny Andrade


A montagem se afasta do regionalismo e aproxima questões do sertão nordestino ao corpo de uma mulher que luta diariamente por sua dignidade enquanto enfrenta inúmeras injustiças e dificuldades

Em 2018, a atriz Tertulina Alves retornou à Macaúbas, município localizado no interior da Bahia onde passou parte de sua infância, para dialogar com mulheres que vivem na região e experimentam de diferentes formas as condições do sertão nordestino. Os relatos foram unidos à história da própria Tertulina e se transformaram na peça "Sertão Sem Fim", que estreia no Teatro Sérgio Cardoso. A dramaturgia é de Rudinei Borges dos Santos e a direção é de Donizeti Mazonas.


Na peça, Tertulina interpreta Bastia, personagem que traz em seu corpo essas diferentes formas de se viver o sertão. As mulheres mais presentes na construção da personagem são a avó de Tertulina, Maria Tertulina, que nasceu no sertão Bahia, na região de Três Outeiros de Macaúbas e migrou para São Paulo, encontrada recém-nascida em um cesto de palha num curral; Maria Izabel, moradora da comunidade de Três Outeiros de Macaúbas e conhecida até hoje, com mais de 80 anos, como a Rainha das Cavalgadas; e da própria Tertulina Alves, cuja infância no sertão foi marcada por um período de forte seca.


Cena de Sertão Sem Fim - Foto de Keiny Andrade


Por sua vitalidade, força e imagem mítica - uma verdadeira Iansã - a Dona Izabel - a rainha da cavalgada, como é conhecida na região - se tornou para mim uma referência para a construção de ‘Bastia’, personagem central de Sertão Sem Fim”. Tertulina Alves

A história de Bastia é marcada por uma imensa tragédia pessoal: seu marido, o vaqueiro Dão Sálvio, foi covardemente assassinado por fazendeiros da região. O motivo da morte de Dão Sálvio era a prosperidade do casal, que trabalhou duramente durante o período de estiagem e conseguiu adquirir um rebanho de sessenta cabeças de gado. Montada em um cavalo, ela percorre a cidade com o corpo morto do marido, em busca de justiça.


“No Sudeste ainda há um imaginário sobre o sertão que o remete quase sempre a seca. Em Sertão Sem Fim buscamos pensar em outras possibilidades de se retratar esse espaço. A Maria Izabel, por exemplo, é uma mulher que foi arrimo de família desde os 10 anos, tendo de trabalhar longe de casa, em espaços onde chovia com mais frequência, para que pudesse trazer sustento para a família”, conta a atriz.


Tertulina teve ainda outras conversas marcantes com mulheres de idades e relações distintas com o espaço – incluindo uma jovem de 25 anos que deixou a cidade e mulheres de 45, 75 e 100 anos, sendo essa última a responsável por contar à Tertulina histórias sobre a sua avó, que a atriz perdeu quando era criança.

Os relatos foram transferidos para Rudinei, dramaturgo e poeta ficcionista que assina a dramaturgia do espetáculo. “As narrativas, os trajetos e a história oral de mulheres sertanejas que eu sequer conhecia foram um convite sobretudo ao exercício da escuta e da empatia. O que eu tinha em mãos era o registro de áudios, uma voz miúda, quase ao longe, que me contava uma trajetória de luta na terra e pela terra, fragmentos de memórias que testemunhavam a desigualdade social e as injustiças do Brasil profundo”, diz Rudinei.

SOBRE A MONTAGEM

O corpo tem um lugar fundamental no processo de criação de "Sertão Sem Fim", Donizeti Mazonas, artista com ampla experiência em dança e teatro, foi convidado para assumir a direção da peça e sugeriu, desde o início, propostas que não caíssem em regionalismos ou visões estereotipadas sobre o Nordeste e o sertão.


“Nossa questão foi olhar para o universo dessa mulher, nas suas questões que incluíam a falta de chuva, as desigualdades, a dificuldade de construir seu espaço no mundo e as injustiças”, diz Donizeti, complementando que a peça traz o sertão pra dentro da personagem, como se ele fosse também seu corpo. “O texto vem de um espectro de narrativa muito poética, o que ajudou a pensarmos na Bastia como o próprio sertão, sendo ela uma tradução da chuva, da aridez e da natureza”.


A peça teve o espaço cênico pensado pelo artista plástico Eliseu Weide e, com poucos objetos a vista, tem a síntese como premissa. “Os elementos são bastante sintéticos para se dar a vastidão e a multiplicidade do que pode ser o sertão”, explica Donizeti Mazonas.


O dramaturgo Rudinei Borges dos Santos conta também sobre outros aspectos que o apoiaram na criação do texto: “Passei dias ouvindo aquelas vozes, labutando para amalgamar os relatos de Tertulina e daquelas matriarcas tão parecidas com a minha mãe e a minha bisavó Eva e, talvez, tão parecidas comigo. Algo aconteceu quando comecei a ouvir os áudios ao mesmo tempo em que contemplava minuciosamente as fotografias de Araquém Alcântara, o maior fotógrafo deste país. É de causar emoção a delicadeza com que Araquém fotografa cada marca no rosto da gente sertaneja. Ali, naquele encontro entre palavra e imagem, nasceu Sertão Sem Fim, uma composição ficcional inspirada na vida e na residência de pessoas esquecidas num Brasil em frangalhos”.


Para Tertulina, a peça também estabelece um ponto de empatia com o público ao expor na cena a história de uma mulher que vai atrás de justiça. “Essa mulher passou anos construindo uma história com inúmeras dificuldades e esse algo foi ceifado. Esse corte injusto na sua vida por ser lido como as inúmeras dificuldades que nós temos enfrentado no Brasil de hoje”, ressalta.


FICHA TÉCNICA

Idealização, Pesquisa e Interpretação: Tertulina Alves Dramaturgia: Rudinei Borges dos Santos Direção: Donizeti Mazonas Cenografia e Figurino: Eliseu Weide Desenho de Luz e operação: Hernandes de Oliveira Designer Gráfico: Hernandes de Oliveira Música: Gregory Slivar Operação de som: Viviane Barbosa Fotos: Keiny Andrade Produção Executiva: MoviCena Produções (Jota Rafaelli) Assistente de Produção: Leandro Dias Assessoria de Imprensa: Canal Aberto Mídias sociais: Agência CLOCKWORK Costureira: Benê Calistro Artesã: Cida Souza



SERTÃO SEM FIM

Temporada: De 5 a 22 de Fevereiro

Horário: De Segunda a Sexta, às 19h

Local: Teatro Sérgio Cardoso

Ingressos*: R$ 10 (inteira) | R$ 5 (meia).

* Toda a verba arrecadada será doada para a ONG Casa de Isabel

Capacidade reduzida: Até 50 espectadores.

Duração: 60 min.

Classificação: Livre