Série #EmCasaComSesc recebe a peça "Barulho D'Água"

O espetáculo narra a tragédia de imigrantes que atravessam o mar mediterrâneo.


"Barulho D' Água" volta a ser encenada após uma temporada de sucesso em São Paulo e comemora os 19 anos de trajetória da Companhia Nova de Teatro. A montagem chega ao palco do SESC Santana. A versão brasileira da peça nasceu do encontro dos artistas Carina Casuscelli (tradução e direção) e Lenerson Polonini (provocação e iluminação), fundadores da Companhia Nova de Teatro, com o dramaturgo italiano Marco Martinelli.


Contemplado pela 3ª edição do Prêmio Zé Renato de apoio à produção e desenvolvimento à atividade teatral para a cidade de São Paulo, em 2016, "Barulho D' Água" traz no elenco os atores Alexandre Rodrigues, Fábio Mráz, Rosa Freitas e o ator guineense Vençam Guigui. A peça conta ainda com trilha do músico experimental Wilson Sukorski, provocações de Lenerson Polonini e vídeo projeções de Alexandre Ferraz.


Em 2009, o renomado dramaturgo italiano, Marco Martinelli, movido por uma das piores tragédias humanas sofridas em seu país, decide transformar em dramaturgia a perda de centenas de vidas no Mar Mediterrâneo. "Barulho D' Água" narra a travessia de imigrantes, em sua maioria refugiados de zonas de conflitos, atravessando o mar mediterrâneo em embarcações precárias rumo aos países europeus.


O contato com o autor italiano se deu em 2014 na cidade de Nova Iorque, onde a Companhia Nova de Teatro pesquisava o espetáculo 2xForeman: peças Bad Boy Nietzsche e Prostitutas Fora de Moda, de Richard Foreman. Na ocasião, Marco Martinelli apresentava a versão italiana de "Barulho D' Água" no Teatro La MaMa.


“Nas conversas sobre as pesquisas dos grupos, enxergamos a possibilidade de um intercâmbio, e, com isso, firmamos um acordo de cooperação para investigar dramaturgicamente o tema imigração, com base em experiências desenvolvidas nos dois países.”, explica Lenerson Polonini, diretor artístico do grupo.

Foto: Jaque Bueno


Depoimentos de refugiados

A dramaturgia do espetáculo tem como eixo central o depoimento de cinco refugiados, que foram colhidos pelo próprio Marco Martinelli na Ilha de Lampedusa, na região da Sicília (Itália). O texto original é um monólogo, em que um general conta a história desses refugiados. Na versão brasileira, a diretora Carina Casuscelli resolveu dar vida aos refugiados, cabendo ao ator Alexandre Rodrigues a interpretação de alguns dos personagens.


O general (papel de Fábio Mráz) representa os serviços das capitais europeias que praticam a “política de acolhimento”. “Esse personagem é, por vezes, diabólico, grotesco, desequilibrado, psicótico, sádico, cínico, fatalista, mas, também, apresenta-se como simpático porteiro de certa ilha dos mortos, com a missão de reunir e contar as almas de imigrantes”, conta a diretora.


A atriz Rosa Freitas entoa as canções do espetáculo, acompanhada, ao vivo, do ator guineense Vençam Guigui.


A “água”, como elemento virtual, será utilizada como um espelho do “eu”. As vozes ressonantes e a figura do general permearão toda a encenação, que será potencializada pelo trabalho videográfico e documental, com telas de projeção transparente, no intuito de criar sobreposições para narrar fatos no passado e presente.


Números

"Barulho D' Água" narra a história do drama de milhares de refugiados, que, em sua maioria, morrem atravessando o mar Mediterrâneo. Tanto os sobreviventes, como os mortos, são identificados por números, e os que não conseguem se salvar viram apenas um registro, sem a possibilidade da família resgatar o corpo. “Os números estão presentes durante toda a montagem, ora projetados, ora nos corpos dos personagens. O nosso espetáculo também é uma forte crítica àqueles que entendem a imigração como uma mercadoria”, afirma a diretora.


Para Lenerson Polonini, o tema abordado em "Barulho D' Água" tem ocupado espaço crescente em todas as mídias, por meio de reportagens, fotos e imagens e tem chocado a população global.


“Infelizmente, o sentimento de indignação parece estar dando lugar ao conformismo, à apatia e à insensibilidade que tem dominado o nosso cotidiano diante de milhares de mortes que parecem não nos afetar. Mas o teatro, por sua natureza, é um lugar onde a tragédia pode ser representada, revivida, podendo aproximar a plateia daquilo que por vezes parece pertencer somente à ficção”, acredita ele.


Foto: Jaque Bueno


Sobre a Companhia Nova de Teatro

Fundada em 2001, pelo diretor Lenerson Polonini em parceria com a atriz e figurinista Carina Casuscelli, a companhia desenvolve um trabalho de pesquisa contínua a partir da performance, das artes do corpo e do universo das artes visuais. A Companhia Nova de Teatro é uma companhia aberta e a cada novo projeto convida atores, bailarinos e artistas de diversas áreas para colaborarem com suas produções. O teatro multimídia desenvolvido pela companhia procura explorar a tridimensionalidade do palco e a relação da arte com o espaço urbano.


A representação performática privilegia o aspecto físico do ator na cena, onde estes não representam “papéis”, mas funcionam como ícones, imagens e veículos por meio dos quais o público recebe uma multiplicidade de eventos visuais e auditivos, como se estivesse dentro de uma caixa de estímulos sensoriais sincronizados. Na trajetória do grupo, destacam-se encenações dos autores: Samuel Beckett, Heiner Muller, Gertrude Stein, Wilhelm Reich, Edgar Allan Poe e Richard Foreman, além de obras de dramaturgia própria.


Em 2012, a companhia conquista o primeiro lugar do Prêmio Internazionale Teatro Dell' Inclusione Teresa Pomodoro, em Milão/Itália, com o espetáculo Caminos Invisibles...La Partida. O júri desse prêmio contou com nomes importantes da cena mundial, como Eugenio Barba, Luca Ranconi, Lev Dodin e Jonathan Mills. Em 2013, contemplado pelo Edital de Intercâmbio do Ministério da Cultura, os integrantes do grupo realizam residência artística no Attis Theatre, em Athenas/Grécia, estreando no teatro grego a peça Krísis, com supervisão de Theodoros Terzopoulos, diretor da companhia grega e também idealizador do “Theater Olympics” - Olimpíadas de teatro mundial. Em junho de 2015, a Companhia Nova de Teatro é convidada a exibir figurinos do espetáculo Doutor Faustus Liga a Luz, de Gertrude Stein, no lendário The Bakhrushin State Central Theatre Museum, em Moscou/Rússia, onde também realiza uma performance com fragmentos da peça na abertura do evento "Costume at the Turn of the Century 1990 – 2015”. No catálogo do evento, contendo 380 páginas com os figurinos que mais se destacaram no mundo, e produzido pela maior exposição dedicada ao traje teatral, um capítulo é totalmente dedicado a figurinista Carina Casuscelli, com imagens dos figurinos de Dr. Faustus. O mais recente trabalho do grupo, 2xForeman: peças Bad Boy Nietzsche e Prostitutas Fora de Moda, de Richard Foreman, com direção de Lenerson Polonini, foi contemplado pelo Proac/2014, da Secretaria de Estado da Cultura, encenado em 2015. Em 2016, encena a peça Barulho D’água, do italiano Marco Martinelli e direção de Carina Casuscelli, contemplado pelo Prêmio Zé Renato de Teatro da Secretaria Municipal de Cultura, cumprindo temporada nos teatros João Caetano, Cacilda Becker e Alfredo Mesquita. Em 2017, encena a ultima parte do projeto TRILOGIA FOREMAN, com a peça Os Deuses Estão Marretando a Minha Cabeça, cumprindo temporada no SESC Pinheiros.


Em 2019, o grupo participa do Analogio Festival de Atenas, com o work in progress Kassandra-Hecuba, que, na sequência, é apresentado nas cidades de Sibiu, durante o Festival 25 Ore Teatrul Non Stop, e no Teatrul de Artã, de Bucareste, na Romênia.


Em 2020, durante o confinamento pela Covid-19, a companhia realiza a série DIÁLOGOS, com objetivo de pensar sobre a criação artística e a sociedade em tempos de pandemia, convidando o público a refletir e elaborar caminhos e estratégias em meio à crise global, com sérios impactos na arte, na cultura, na economia e na política. A série foi realizada via Instagram da Companhia Nova de Teatro e contou com a presença de artistas, gestores, críticos, jornalistas, curadores, pensadores, pesquisadores e líderes de relevada importância no cenário das artes, da cultura, da economia, da política e da filosofia.


Atualmente, o grupo é formado por Carina Casuscelli, Rosa Freitas e Lenerson Polonini, além de outros colaboradores da companhia.

Foto: Jaque Bueno


Sobre Marco Martinelli e Teatro delle Albe

Marco Martinelli tem encenado suas peças e recebido prêmios importantes em toda Europa e Estados Unidos, influenciando a nova geração de teatro. A abordagem herética ao teatro exerceu forte influência na dramaturgia de Rumore di Acque, monólogo composto em 2010 por Martinelli, dramaturgo, diretor e fundador da Companhia Teatro Delle Albe, fundada em 1983, em conjunto com Ermanna Montanari, Marcella Nonni e Luigi Dadina.


Em seus primeiros manifestos, na década de 1980, os fundadores do Teatro Delle Albe defininiram-no como "Politttttttical Theatre", com sete “t”, para declarar com ironia irreverente sua distância do reinado da época – ideologicamente,teatro político e bombástico em suas certezas e julgamentos. Sem medo de apostar no simples, a companhia declarou que iria criar ações teatrais compostas por representações multifacetadas, destinadas a um público em busca de perguntas ao invés da confirmação do pensamento instaurado.


TEATRO # EMCASACOMSESC

A série de apresentações de teatro do Sesc São Paulo na internet está no ar desde 15 de maio, com atuações de importantes atores, atrizes e companhias, de diferentes vertentes. Com transmissões às quartas, sextas e domingos, às 21h, direto da casa dos artistas ou de palcos das unidades, a programação já realizou 105 apresentações que somam mais de 412 mil visualizações . Muitos desses espetáculos permanecem disponíveis no YouTube do Sesc São Paulo.


Ficha Técnica

Texto – Marco Martinelli

Direção e tradução – Carina Casuscelli

Provocação e Iluminação – Lenerson Polonini

Atores – Alexandre Rodrigues, Vençam Guigui, Fábio Mráz e Rosa Freitas

Figurinos – Carina Casuscelli

Operação de luz – Verônica Castro

Operação de som- Felipe Moraes

Operação de imagem- Téo Ponciano

Concepção Espacial e Produção – Carina Casuscelli e Lenerson Polonini. Realização – Companhia Nova de Teatro


BARULHO D’ ÁGUA

Data: 04 de Dezembro

Horário: Sexta, às 20h

Local: Canal do YouTube do Sesc São Paulo

Ingressos: Gratuito

Duração: 58 minutos

Classificação: 16 anos