Porteiros e cobradoras de ônibus são elementos protagonistas em projeto teatral

Espetáculos "Portar(ia) Silêncio" e "A Cobradora" fazem temporada conjunta.

Foto: David Costa


Algumas categorias são constantemente invisibilizadas pela sociedade, como se não fossem primordiais e nem mesmo humanas. Com a pandemia, essa condição acabou se agravando, ‘escondendo-as’ ainda mais. Dois espetáculos, que estrearam em 2019, discutem os pontos de vista de duas dessas classes: os porteiros e as cobradoras. Em maio, Portar(ia) Silêncio e A Cobradora, respectivamente criações do diretor e ator Jhoao Junnior e da Zózima Trupe, serão transmitidos em conjunto, em sessões virtuais e gratuitas.


Serão ao todo 20 apresentações on-line, oito delas transmitidas ao vivo a partir de um palco (sem presença de público). Oficinas de criação, com os artistas dos dois espetáculos, virtuais via plataforma Zoom, também fazem parte desta mini-temporada.


Cada uma das sessões dos espetáculos conta com um prólogo, com os dois atores que protagonizam os monólogos, seguido pela encenação de Portar(ia) Silêncio e, antes de A Cobradora, haverá ainda um interlúdio, em que os dois personagens contracenam, mais uma vez.


Os espetáculos foram criados a partir de depoimentos pessoais e técnicas de história oral junto a porteiros de prédios e condomínios da região central da cidade e de cobradoras de ônibus a partir do parque Dom Pedro.

“A ideia é integrar as experiências num ato performativo com apresentação de ambos os espetáculos de forma sequenciada, como um primeiro e segundo ato, de uma dramaturgia que discute o masculino e feminino invisibilizado na cidade de São Paulo a partir do contexto de vida de trabalhadores subalternos que revelam em seus depoimentos trajetórias históricas de um país colonial pautado pela migração nordestina aos grandes centros urbanos, xenofobia, violência doméstica, misoginia e, sobretudo, por uma construção de cidade que parte daqueles que estão marginalizados dos modelos econômicos dominantes de cidade”, explica Jhoao Junnior.


Em suas conversas com conterrâneos, e no seu próprio caso, já que ele veio do Rio Grande do Norte à São Paulo, Jhoao constatou que o sentimento de solidão é comum entre os migrantes. Transformou isso em pesquisa e, mais tarde, em texto para o teatro. No caso da Zózima Trupe, a constatação foi muito parecida - a partir de relatos colhidos em entrevistas realizadas com cobradoras (todas de origem nordestina), as histórias eram permeadas pela violência, amor, sonhos e solidão.


Ambas as peças costuram a cidade a partir desses indivíduos que ocupam posições subalternas e que veem a cidade de um ponto de vista muito particular, solitário e invisível - as cobradoras costuram a cidade, os porteiros olham a cidade a partir de um lugar estático. E a pandemia causada pelo novo Coronavírus potencializou tanto a solidão quanto a situação de invisibilidade. Porteiros e cobradoras não pararam de trabalhar, se expondo, enquanto que o contato e a troca com outras pessoas foram ainda mais reduzidos.


Portar(ia) Silêncio


Foto: David Costa


O monólogo Portar(ia) Silêncio une teatro documental e linguagem cinematográfica e parte da experiência de nove porteiros do Nordeste que migraram para São Paulo. O processo de criação do espetáculo partiu de uma pesquisa do artista potiguar Jhoao Junnior sobre a memória nordestina na capital paulistana. Em comum, sua pesquisa reconheceu o olhar colonialista e aristocrático sobre o Nordeste do país, os preconceitos linguísticos e a falta de identificação da cultura local nas dinâmicas impostas pela cidade. O recorte feito por Portar(ia) Silêncio a partir do olhar dos porteiros migrantes torna-se um símbolo de como a dinâmica urbana contrapõe hábitos e vivências dessas pessoas, grande parte delas vinda de zonas rurais do Nordeste.

"A portaria virou metáfora para implicações existenciais. O porteiro é um trabalhador do silêncio e ocupa um lugar parecido com o da própria história da migração, que é não estar dentro nem fora, não estar num espaço público nem privado, além de receber com frequência um olhar e um tratamento estereotipado sobre seu local de origem", explica Jhoao, que vive há dez anos em São Paulo.

Na peça, uma ficção documental, Jhoao entrelaça depoimentos dos porteiros gravados em vídeo e projetados na parede do auditório com sua interpretação. "Ocupo um lugar de ator, mas não de personagem. Transito entre esses homens numa espécie de presentificação das suas histórias. Há um trabalho forte com a palavra, a prosódia, o sotaque e os locais de onde vem cada uma dessas pessoas", destaca. Os nove porteiros que se dispuseram a gravar os depoimentos para Jhoao são dos estados de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Bahia, Sergipe e Piauí.


A Cobradora

Foto: David Costa


As relações criadas durante o percurso de um ônibus de linha na cidade de São Paulo são o cenário e a inspiração para o espetáculo A Cobradora, da Zózima Trupe. Nele, Maria Alencar encena o cotidiano de Dolores, uma cobradora, suas histórias e desilusões. A peça começou a ser criada em 2016, quando integrantes da companhia começaram a colher relatos do cotidiano de cobradoras que trabalhavam no Terminal Parque Dom Pedro II. A partir desta residência artística de oito anos da Zózima Trupe foi criada a dramaturgia, por Cláudia Barral, que registrou a poesia das narrativas reais das trabalhadoras do transporte público da cidade de São Paulo.

“Quando você abre a porta do ônibus é igual uma porta de uma igreja, qualquer um entra: o preto, o branco, o pobre, o rico, o ladrão, o estuprador, ou seja, você vê de tudo um pouco”. Maria das Dores, cobradora.

São histórias de amor, amizade, luta, perdas, revolta, solidão… Emoções comuns a praticamente todas as mulheres e que foram acentuadas com a pandemia provocada pelo novo Coronavírus. “Essa aproximação nos colocou em um lugar de troca, uma reflexão da ação do cotidiano a partir da arte, uma percepção da potência dessa mulher em relação com o coletivo, com a cidade, com o indivíduo, com o micro e o macro cosmo da nossa sociedade, esse que se apresenta dentro de um ônibus em movimento pela cidade”, relata Anderson Maurício, diretor da peça e um dos fundadores da Trupe.


Ficha técnica

A COBRADORA Atriz criadora: MARIA ROSA Direção: ANDERSON MAURÍCIO Dramaturgia: CLÁUDIA BARRAL Vídeo (captação e edição): LEONARDO SOUZZA Preparação corporal e Movimento: NATÁLIA YUKE Preparação Vocal: MARILENA GRAMA Trilha sonora original: RODRIGO FLORENTINO Sonoplastia: DEVÃO SOUZA Iluminação: FAGNER LOURENÇO FERNANDES Cenografia: ANDERSON MAURICIO e NATHALIA CAMPOS Produção geral: TATIANE LUSTOZA Assistência de Produção: JONATHAN ARAUJO E AMANDA AZEVEDO História Oral de: LUZINETE DIAS DE OLIVEIRA, MARIA DAS DORES BEZERRA E MARIA DAS DORES COSTA DA SILVA (DOLORES). Portar(ia) Silêncio Atuação, direção e dramaturgia: Jhoao Junnior Videoarte e transmissão ao vivo: Flávio Barollo Iluminacao e operação de luz: Rodrigo Silbat Espaço cênico: Jhoao Junnior, Rodrigo Silbat e Flavio Barollo Cinegrafistas: Flávio Barollo e Milena Medeiros Participação: Jose Severino Alves e João Batista Ferreira Direção de Produção: Jhoao Junnior Produção executiva: Juliana Grave Designer Gráfico: Orelho Studio Transmitido em tempo real: Casa da Zica


Do projeto Idealização e direção de produção: Jhoao Junnior Produção Executiva: Juliana Grave. Designer Gráfico: Orelho Studio. Assessoria de imprensa: Canal Aberto


PORTAR(IA) SILÊNCIO E A COBRADORA


Maio e junho de 2021 | Ingressos Gratuitos - Reserve Aqui:


Agenda de apresentações:

  • Jornada 01 - 14 a 17 de maio e 21 a 24 de maio, sexta a segunda-feira, às 20h

Assista aqui.

  • Jornada 02 - 28, 29 e 30 de maio, sexta-feira a sábado, às 21h e domingo, às 19h

Assista aqui, no Youtube e Facebook do Teatro Alfredo Mesquita

  • Jornada 03 - 04, 05 e 06 de junho, sexta-feira a sábado, às 21h e domingo, às 19h

Assista aqui, no Youtube e Facebook do Teatro Cacilda Becker

  • Jornada 04 - 11, 12 e 13 de junho, sexta-feira a sábado, às 21h e domingo, às 19h

Assista aqui e no Facebook do Teatro Arthur Azevedo

  • Jornada 05 - 18, 19 e 20 de junho, sexta-feira a sábado, às 21h e domingo, às 19h

Assista aqui e Facebook do Teatro Popular João Caetano

Oficinas

A memória, a biografia e a estética teatral pandêmica: das narrativas de si e do outro

Informações, inscrições e atividades aqui.

  • Jornada 01 - 18, 20 e 22 de maio, às 14h

A biografia e a autobiografia, o sentido do eu se espelha no outro

  • Jornada 02 - 25, 27 e 29 de maio, às 14h

A memória social e a consciência de si, narrativas migrantes do Nordeste Brasileiro nas portarias de prédios e nas catracas de ônibus em São Paulo

  • Jornada 03 - 08, 10 e 12 de junho, às 14h

O documento, a ficção e a memória: linhas de tensão na dramaturgia documental

  • Jornada 04 - 01, 03 e 05 de junho, às 14h

O lugar de fala, a colonialidade de “dar a voz”?

  • Jornada 05 - 15, 17 e 19 de junho, às 14h

O vídeo, a internet e os meios isolados da criação teatral: a estética do “reality”