Peça faz uma aproximação da cultura negra brasileira com o imaginário dos faraós

Espetáculo "Faraó Tropical" traz à cena espírito de Tutankamon e estreia no Centro Cultural São Paulo


Foto: Sérgio Freitas


O grupo Aias do Brasil estreia no Centro Cultural São Paulo o espetáculo "Faraó Tropical" dentro da 8ª Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos do CCSP, que teve suas últimas edições realizadas em formato híbrido.


A Mostra apresenta ao público, após "Faraó Tropical", as temporadas de "Levante", de Andrezza Czech, e "N_G_O – o silêncio que antecede o revide", de Filipe Celestino. As três obras, selecionadas pelo edital de 2022, tem por objetivo fomentar a criação dramatúrgica na área teatral e promover a montagem e estreia de obras cênicas inéditas, originadas a partir destas dramaturgias, dentro da programação do CCSP, segundo o conceito de “pequenos formatos cênicos”.


Foto: Sérgio Freitas


Em "Faraó Tropical", corpos se preparam para receber o espírito de Tutankamon, faraó da décima oitava dinastia que entrou no reinado aos nove anos de idade, permanecendo até seus 19 anos, quando ele morreu. Nos dias de hoje, o conhecimento notório acerca de Tutankamon se dá pela descoberta de sua tumba e também por ele ter sido a autoridade responsável por instituir o politeísmo de volta no Egito.


A peça tem dramaturgia assinada por Rafael Cristiano e direção de Otacílio Alacran - ambos também estão em cena. Com estudo e prática aprofundados em religiões de matriz africana, Rafael conta que o texto traz essa perspectiva para fazer com que o faraó Tutankamon desça e reflita o nosso tempo. "Através do transe, ele traz em sua palavra o modo como festeja e as conexões entre seu tempo e o tempo atual", complementa o artista.



Foto: Sérgio Freitas


Ao deslocar essa figura do Oriente para o Brasil, Rafael conta que sua proposta foi a de criar uma perspectiva de aproximação da cultura negra brasileira com esse imaginário dos faraós, divindade destacada inclusive na composição “Faraó (Divindade do Egito)”, de Luciano Gomes, a pedido do grupo Olodum, conhecida amplamente pela versão cantada por Margareth Menezes. "Trazemos inclusive a música para a cena como uma forma de olhar para o Egito com esse interesse de interlocução", diz Rafael.


Otacílio, diretor da peça, fez escolhas minimalistas em diálogo com a poética de Ricardo Guilherme - um dos criadores do Curso Superior de Artes Cênicas da Universidade Federal do Ceará -, que preza sobretudo pelo corpo do artista em cena. "No espetáculo, trazemos os corpos como elementos estruturantes de toda a cena. Não há sonoplastia, grandes cenários ou outros elementos que não partam da construção poética dos atores", conta Otacílio.


Foto: Sérgio Freitas


A cenógrafa Telumi Hellen cria uma espacialidade composta por areia com um símbolo dourado oculto sob ela, que se tornará aparente ao longo do espetáculo. O cenário está disposto em forma de arena, com o público sentado ao redor, e a figurinista Maria Caúla teceu sóbrios figurinos sobrepostos que potencializam o mistério nessa arena.


O artista reforça que o texto-base da peça é poético, que sucede metáforas em cruzamentos e sobreposições, encaradas por Otacílio como palimpsestos (pergaminhos cujos textos iniciais foram raspados para dar lugar a outros). É dessas camadas sobrepostas que a peça traz a dimensão de relatos históricos de forma sutil.


Foto: Sérgio Freitas


"Raspamos a imagem egípcia para ver o Brasil e raspamos o Brasil pra ver a antiguidade. Raspamos Tutankamon para enxergar esse menino que viveu tão pouco tempo", diz Otacílio. Rafael Cristiano reforça que, por ser um trabalho criado imediatamente após o período de isolamento social gerado pela pandemia, o trabalho desafia o público em relação ao tempo. "A dimensão do tempo é uma outra camada de contato com o espectador, que pensa na construção corporal como modo de sair de um cotidiano acelerado para um tempo mítico", finaliza Otacílio.


Ficha Técnica:

Dramaturgia: Rafael Cristiano

Direção: Otacílio Alacran

Atuação: Otacílio Alacran e Rafael Cristiano

Preparação corporal e Assistência de Direção: Rafael Lemos

Orientação Musical e Vocal: Solange Assumpção

Figurino: Marisa Caula

Iluminação: Vânia Jaconis

Iluminadora Assistente: Pepa Faria

Cenário: Telumi Hellen

Fotografia: Sérgio Freitas

Filmmaker: André Grejio

Apresentação: Ave Terrena

Revisão: Ismar leal

Designer Gráfico: Murilo Thaveira

Assessoria de Comunicação: Canal Aberto

Produção: Corpo Rastreado

Realização: AIAS DO BRASIL e Centro Cultural São Paulo


FARAÓ TROPICAL

Temporada: De 15 de Setembro a 09 de Outubro

Horário: Quinta, Sexta e Sábado, 21h | Domingo, 20h

Local: Rua Vergueiro, 1000 - Paraíso

Ingressos: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia) | Compre aqui

Duração: 60 minutos

Classificação: 14 anos

Capacidade: 60 pessoas