Musical "Guerra de Papel" transporta o mito de Antígona para os tempos atuais

Espetáculo apresenta a dura realidade enfrentada pelos jovens negros da periferia


Foto: Jefferson Pancieri



Segunda peça da trilogia de pesquisa da Tô em Outra Cia. de Teatro sobre Teatro Grego e Periferia, "Guerra de Papel - Uma Tragédia Urbana Musical" é o novo espetáculo do grupo de repertório do Jaguaré, na zona oeste de São Paulo. A temporada acontece na Sala Carlos Miranda - Complexo Funarte São Paulo.


Em "Guerra de Papel" a Tô em Outra Cia. de Teatro - sempre na estética do teatro musical – transporta o mito de Antígona para a contemporaneidade e retrata o luto. A reflexão proposta passa pelo precário ensino público brasileiro e o genocídio dos negros, principalmente em escolas periféricas, consequência do combate entre polícia e traficantes. Na primeira peça da trilogia, (Das Ruas, um Orfeu de Mochila) o grupo adaptou o mito de Orfeu e Eurídice para os tempos atuais, celebrando o amor.

Foto: Jefferson Pancieri


Enquanto na mitologia grega, a figura de Antígona - filha do casamento incestuoso de Édipo e Jocasta – é aquela que tenta enterrar seu irmão, na peça da companhia ela é a personagem central, a mulher negra na luta para descobrir quem tirou a vida de seu filho Aramiz, morto em consequência de uma bala perdida dentro da sala de aula.


Depois da tragédia com o filho, Antígona estampa o rosto do menino nos jornais, camisetas e em sua janela, gritando em sua comunidade, fazendo sua própria guerra. “Queremos falar sobre as mortes nas periferias, sempre invalidadas pela mídia e pela polícia, que nunca realiza uma investigação séria para encontrar o culpado. Tipo o que vemos com o caso Marielle Franco. Um caso famoso, de uma vereadora periférica, pessoa pública, até hoje sem conclusão”, comenta o Diretor Geral Jorge Alves.


Os mitos colaboram na compreensão das relações humanas e ajudam a ampliar nosso entendimento sobre o mundo e nós mesmos. Eternos, estão presentes na vida de cada ser humano, que é um pouco Deus e herói de sua própria história.


Foto: Jefferson Pancieri


A mulher na obra é muito presente. A professora, a irmã e a mãe, três mulheres que tiveram seus pensamentos e sentimentos revirados por uma criança que teve sua vida interrompida. Também retratada na peça, Ismênia, irmã de Antígona, é a mulher que perdeu o sobrinho de forma brutal, uma pessoa que tenta amenizar o peso da saudade e a da insatisfação da vida, tanto dela quanto de sua irmã Antígona. Se sente impotente, não encontra força em seus braços para segurar a irmã e mesmo com esse sentimento, ela está o tempo todo pensando na sua família.


Regida pelas lembranças do filho, Antígona sente cada vez mais raiva da justiça dos homens e espera encontrar paz na justiça divina. A professora abre a narrativa com uma conversa sincera com Deus, tentando buscar as respostas para os questionamentos que não encontra nos mortais. A morte do filho leva Antígona a repensar o futuro dos alunos e buscar outra forma, através do ensino, para tornar seus alunos seres pensantes e realizadores.


Foto: Jefferson Pancieri


“Escolhemos contar esta história para mostrar uma realidade que, infelizmente, ainda é muito presente. A lei natural da vida é que os filhos enterrem seus pais, mas sabemos que o destino inverte de forma cruel os papéis”, comenta o ator Jorge Alves. “A peça é dura, assim como a vida da minoria- maioria da população”, pensa Jorge Alves.


Ficha técnica

Texto de Andreza Rodrigues e Thuane Campos. Letras de Andreza Rodrigues, Jorge Alves, Leo Matheus, Paulo Henrique e Thuane Campos. Músicas de Jorge Alves, Leo Matheus e Paulo Henrique Costa. Arranjos Musicais de Paulo Henrique Costa, Leo Matheus e André Laitano. Elenco: Mayara Tenório – Antígona. Thayna Rodrigues – Ismênia. Claudine Palhàres – Professora. Cinthia Tomaz – Ensamble. Mariana Sancar – Favela e Ensamble. Renan Marques – Ensamble. Uédia Alves – Ensamble. Vittor Oliver – Ensamble. Direção Geral de Jorge Alves. Direção Musical e Regência de André Laitano. Direção de Movimentos e Coreografias de Gustavo Medeiros Músicos Instrumentistas: André Laitano (Piano e Teclas), Julio Lino (Baixo), Matheus Araújo (Violão e Cavaquinho) e Tunuka (Percussão e apoio vocal). Coach e Preparação Vocal de Thais Rodrigues. Figurino de Gabriela Araújo. Cenário de Heron Medeiros. Assistente de Direção: Andreza Rodrigues. Assistente de Produção: Thuane Campos. Design de Luz e Op.: Fernando Ferreira. Sonorização: Radar Sound. Assessoria de Imprensa: Arte Plural – M. Fernanda Teixeira e Macida Joachim. Programação Visual: Agência Artprint. Produção: Tô em Outra Produções Culturais. Realização: Tô em Outra Cia. de Teatro.


GUERRA DE PAPEL

Temporada*: De 09 de Setembro a 01 de Outubro

Horário: Sexta e sábado às 20h. Domingo às 19h

Local: Alameda Nothmann, 1058 - Campos Elíseos

Ingressos: R$ 60,00 (Inteira) | R$ 30,00 (Meia) | Compre aqui


*Sessão extra - Dia 29 de Setembro, às 20h


É exigido comprovante de vacinação na entrada do teatro. Ou comprovante de teste de COVID realizado com 48h de antecedência.