“Desfazenda – Me enterrem fora desse lugar”, d’O Bonde, faz nova temporada virtual

A dramaturgia é livremente inspirada no filme "Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil", de Belisario Franca

Foto: José de Holanda


Após uma curta temporada com ingressos esgotados no Itaú Cultural, no projeto Palco Virtual, “Desfazenda – Me enterrem fora desse lugar”, apresenta novas sessões gratuitas. Os ingressos são limitados e devem ser reservados na plataforma Sympla.


“Desfazenda – Me enterrem fora desse lugar” tem direção de Roberta Estrela D’Alva e dramaturgia de Lucas Moura, baseada no texto original "Como criar um corpo negro sem órgãos". São variados os ineditismos desta montagem. É a primeira direção da Roberta fora do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos - coletivo que criou uma linguagem própria, o teatro hip-hop - e, com este espetáculo, O Bonde inicia sua trajetória no teatro adulto, visto que foi com um prestigiado infantil-preto, “Quando eu morrer, vou contar tudo a Deus”, que a companhia foi (re)conhecida em sua trajetória.


Nesta peça-filme inédita d’O Bonde, as personagens 12, 13, 23 e 40 são quatro pessoas pretas salvas da guerra por um Padre Branco quando crianças. Desde então vivem na fazenda deste Padre, cuidando das tarefas diárias, supervisionadas por Zero, figura enigmática, central e onipresente, embora sempre ausente. O Padre nunca sai da capela, a guerra nunca atingiu a Fazenda e quando os porquês são questionados, o sino toca e lembra que é hora da oração ou do trabalho. Até que um estranho vulto chega à Fazenda e muda os ventos, o mudo silêncio é quebrado e de dentro da capela o segredo é revelado.

“(...) Desfazenda – Me Enterrem Fora Deste Lugar é obra rara na qual todos os elementos dialogam com exatidão. Do desenho de luz de Matheus Brant, passando pelo figurino de Ailton Barros, e desaguando na excelente direção musical de Dani Nega, que assina duas canções inéditas para a obra, Saci e Tocar o Gado. Mas é com base no elenco formado por Ailton Barros, Filipe Celestino, Jhonny Salaberg e Marina Esteves que a obra de fato emerge como contundente experimento cênico, que, aliando o caráter urgente e a excelência artística triunfa como um dos principais trabalhos produzidos dentro do universo online desde sua massificação." Bruno Cavalcanti, crítico, no Observatório do Teatro.


Spoken word, a poesia falada


Literalmente "palavra-falada", ou conceitualmente "poesia falada", spoken word é o nome dado a uma forma de performance na qual as pessoas recitam textos no contexto da música, literatura, artes plásticas ou cênicas. Desfazenda - Me enterrem fora desse lugar, lança mão dessa linguagem em uma pesquisa onde a palavra tem papel fundamental: pulsa com os atores evocando uma "fala percussiva" que traz à cena uma batida constante, compassada, um ritmo musical aos diálogos e à narrativa. Para levar esta experiência aos palcos (e às telas) os atores Ailton Barros, Filipe Celestino, Jhonny Salaberg e Marina Esteves (integrantes d’O Bonde) - além das vozes das convidadas Grace Passô e Negra Rosa - fizeram a filmagem no Teatro Santa Cruz, embasados por ensaios anteriores virtuais e presenciais.


Quem faz a direção musical é a atriz, compositora e DJ Dani Nega que tem uma parceria artística de longa data com Roberta Estrela D'Alva, com quem divide a apresentação de Slams - batalhas de poesia falada que viraram febre em todo Brasil nos últimos anos. Juntamente com o DJ Eugênio Lima, Roberta e Dani Nega receberam em 2020 o Prêmio Shell de Melhor Música pelo espetáculo Terror e Miséria no Terceiro Milênio - Improvisando Utopias.

Foto: José de Holanda


Camadas


Desfazenda é uma peça-filme com elementos do teatro e do cinema. O processo envolveu a adaptação do texto original e sua transformação em um roteiro para a encenação. Desfazenda - Me enterrem fora desse lugar traz muitas camadas que falam do nosso agora, com uma forte (ainda que não explícita) presença do presente, por meio de referências a episódios recentes, como o assassinato de George Floyd, do segurança João Alberto no supermercado Carrefour, o colapso da saúde em Manaus. Entretanto, ela é atemporal, não é datada.

Potencializações


O Bonde começou em 2017 com uma relação muito íntima com a palavra, com os griôs, que na tradição africana, são os guardiões da memória, da história, dos mitos e costumes que seus povos transmitem oralmente. Nada mais natural que trazer a palavra à frente da cena no primeiro trabalho adulto do grupo. E foi esta experiência que fez com que O Bonde fizesse o convite para que Roberta assumisse a direção do espetáculo. A atriz, MC, pesquisadora, diretora e roteirista foi quem trouxe, junto com o coletivo Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, o SLAM, movimento de batalhas de poesia falada, para o Brasil, em 2008.


Em Desfazenda, para que a mensagem e a palavra fossem transmitidas de maneira mais límpida ao público, foi preciso incorporar as restrições que um trabalho em tempos pandêmicos traz. Poucos elementos em cena, uso inteligente da iluminação, provocar o esquisito. A dramaturgia de Lucas Moura também ficou mais enxuta - para incluir o ritmo do spoken word e potencializar o lugar da palavra. De 70 páginas, o texto foi para 30.


Também foi preciso adaptar a linguagem, já que o projeto inicial previa apresentações presenciais. Recriou-se o espetáculo pensando na câmera. Captar a vibração da poesia falada e alçar a palavra ao protagonismo. Trazer para a cena o microfone e o pedestal como elementos que contribuem para a criação de um efeito de distanciamento épico e não como mais um equipamento utilitário, mas sim um ponto de força para explicitar ainda mais a importância da palavra.


Vale enfatizar o retiro realizado em Caieiras pelos atores e direção - seguindo todos os protocolos de saúde e segurança. O uso do spoken word exige um tempo exato de respiração, da batida e da resposta da palavra. Apenas com ensaios virtuais não se alcançaria um nível de excelência e precisão do jogo cênico. Para sentir a respiração do companheiro, naturalizar o movimento, para haver rigor, intensidade: dessas necessidades nasceram os ensaios presenciais, que foram determinantes para o objetivo de inserir o spoken word no espetáculo.

50 meninos negros: da tese de doutorado ao filme e à peça


Desfazenda - Me enterrem fora desse lugar é livremente inspirado em uma história real, descrita no documentário “Menino 23 - Infâncias perdidas no Brasil”, de Belisario Franca, que parte da descoberta de tijolos marcados com suásticas nazistas em uma fazenda no interior de São Paulo.


Este assunto foi tratado pelo pesquisador Sidney Aguilar em sua tese de doutorado “Educação, autoritarismo e eugenia = exploração do trabalho e violência à infância desamparada no Brasil (1930-1945)”. No texto, o historiador relata sobre os 50 meninos negros levados de um orfanato no Rio de Janeiro para uma fazenda - aquela onde os tijolos foram encontrados - e submetidos a trabalhos forçados, isolamento social e castigos físicos por três irmãos que faziam parte da Ação Integralista Brasileira, partido de extrema direita de ideário fascista e nazista.


Para escrever Desfazenda, Lucas Moura utilizou diversas influências, além do documentário “Menino 23” como a ideia de “dupla consciência” do sociólogo norte-americano W.E.B. Du Bois, textos de Frantz Fanon, Aimé Cesaire, Michel Foucault, Gilles Deleuze e André Lepecki. Dentre as referências utilizadas na pesquisa para a encenação estão Grada Kilomba, Antonio Obá, Mohau Modisakeng, Spike Lee, dentre outros.


Desfazenda, em seu estofo, carrega uma colagem de pesquisas (ou, para usar um termo do hip-hop, sampleamento). Se o assunto é bastante complexo e o discurso é potente e ácido, o spoken word faz com que a mensagem artística seja poética, incisiva e cirúrgica.


Foto: José de Holanda


Os personagens e a relação com o corpo e a subjetividade negra


Na fazenda onde estão os personagens 12, 23, 13 e 40, há uma capela e um padre que, ainda que não apareça, se faz presente por meio da personagem Zero, portador das ordens, mandos e encaminhamentos desse padre. E é na capela que acontece o fato que muda a perspectiva de todos ali, ao se depararem com o processo de “re-verem-se”, tirarem os seus próprios véus e enxergarem o mundo (e a liberdade) de uma outra forma.


Enquanto buscam entender a situação na qual se encontram, em meio às memórias, as personagens apresentam problemáticas que costumam ser comuns no processo de entenderem-se como pessoas negras no Brasil: a assimilação do ideário do embranquecimento, a busca de autoestima e autoaceitação, a falsa promessa de um dia pertencer igualitariamente ao "mundo dos brancos", a nascente pulsão de revolta contra conceitos estabelecidos e restrições impostas, além das questões imbricadas de gênero e raça.


Em seu segundo espetáculo, o primeiro adulto, O Bonde se propõe a investigar o processo de descobrir-se uma pessoa negra em um país que têm todas as suas relações eivadas pelo ideário escravocrata, pelas mazelas dessas relações e o que isso significa em históricos sociais e culturais. Surge assim um universo de memórias e revelações que trazem menos respostas do que provocam inquietações e questionamentos.

O ritmo e a poesia


Assim como Roberta, os integrantes d’O Bonde e demais atores envolvidos em todo este processo, a presença de Dani Nega trouxe ainda mais força à Desfazenda. A atriz, MC, compositora e ativista do movimento negro e LGBTQI+ - que vem se destacado no cenário artístico por sua mescla de suavidade, ironia e avidez - é diretora musical do espetáculo e criou todas as batidas, trilhas e paisagens sonoras, além de duas músicas compostas originalmente para a peça-filme.


Dani é uma das poucas mulheres no Brasil a atuar como “beatmaker” (ou seja, criar as próprias batidas, papel constantemente delegado aos homens). Em Desfazenda ela trouxe a potência e o ritmo do hip-hop para a cena, ajudando a criar a poesia do espetáculo e enfatizar o discurso.

Ficha técnica


Direção: Roberta Estrela D'Alva Dramaturgia: Lucas Moura Direção Musical: Dani Nega Elenco: Ailton Barros , Filipe Celestino, Jhonny Salaberg e Marina Esteves Vozes Mãe e Criança: Grace Passô e Negra Rosa Direção de Imagem e Montagem: Gabriela Miranda e Matheus Brant Direção de Fotografia: Matheus Brant Consultoria Artística: Daniel Lima Som direto: Ruben Vals Treinamento e desenho de spoken word: Roberta Estrela D'Alva Produção Musical: Dani Nega Músicas "Saci" e "Tocar o Gado": Dani Nega e Lucas Moura, “Tocar o Gado”: Dani Nega e Lucas Moura, “Ponto para Preto Velho”: Tradição Umbanda/Alessandra Leão, “40 Blues”: Giovani Di Ganzá Figurino: Ailton Barros Desenvolvimento de figurino: Leonardo Carvalh Marcação de cor: Lucas Silva Campos e Samira França Operação de câmera e Efeitos óticos: Isadora Brant Design Gráfico: Tide Gugliano ( Fotos: David Costa , Isadora Brant, José de Holanda e Tide Gugliano Legendas: Francisco Grasso Desenho de Luz: Matheus Brant Operação de Luz: Gabriele Souza Técnica de iluminação e traquitanas: Giovanna Kelly Produção: Corpo Rastreado – David Costa , Gisely Alves e Julia Tavares Assessoria de Imprensa: Canal Aberto – Marcia Marque, Carol Zeferino e Daniele Valério Realização: O Bonde Imagens adicionais : Teranga - Daniel Lima Fotos de Arquivo – Tese “Educação, autoritarismo e eugenia: exploração do trabalho e violência à infância desamparada no Brasil (1930-1945)” de Sidney Aguilar Filho

Dramaturgia livremente inspirada no filme "Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil" de Belisario Franca


Desfazenda - Me enterrem fora desse lugar

Temporada: De 30 de Junho a 11 de Julho

Horário:

1ª semana (30 de junho a 04 de julho)

Quarta e Quinta-feira às 20h | Sexta-feira a Domingo às 20h e às 23h (duas sessões)

2ª semana (07 a 11 de julho)

Quarta-feira às 20h | Quinta-feira a Domingo às 20h e às 23h (duas sessões)

Local: Plataforma Zoom

Ingressos: Gratuitos e Limitados | Reserve aqui.

Duração: 70 min

Classificação: 12 anos