Cia. do Despejo faz crítica à necropolítica brasileira em "Ireti", inspirada na mitologia Iorubá

Distopia narra a história de uma mãe preta que pariu o Brasil e, depois de ser preterida pela nação, reivindica seus direitos de criação

Foto: Duda Viana


Com a missão de dar voz às culturas afrodiaspóricas – que foram depreciadas ao longo da História -, a Cia. do Despejo faz novas apresentações da videoarte online “IRETI”, inspirada no espetáculo de mesmo nome. A obra é uma crítica à necropolítica brasileira e às violências sofridas pelas mulheres negras em nosso país. O texto ficou em 4º lugar no edital de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos, realizado pelo CCSP – Centro Cultural São Paulo em 2019.

A montagem, que tem dramaturgia de Ingrid Alecrim e direção de Thaís Dias, é inspirada na mitologia Iorubá, sobretudo na figura de Nanã Buruku, orixá que cedeu a lama do seu domínio para a criação dos corpos humanos. Ela também é responsável pela desencarnação, uma vez que exige de volta a matéria criadora da vida. “O texto surgiu da ideia persistente de que o Brasil (conforme nominado após a colonização) foi parido e aleitado por mulheres indígenas, africanas e afrodescendentes. “Nosso ‘mundo’ é moldado através das mãos dessas mulheres e, muitas vezes, contra suas vontades. Na colonização, tudo o que é frutífero ficará arrasado: a terra e suas preciosidades, o corpo feminino e sua capacidade de gerar os povos miscigenados, que já nascem sob dominação”, revela a dramaturga Ingrid Alecrim.

A narrativa é conduzida por uma mãe preta e pobre, a personificação de Nanã Buruku. Ela ergueu o Brasil com os próprios braços, mas foi preterida pelo país e, agora, mergulhada em um contexto de miséria, violência, fome e terror, assiste a seus filhos serem mortos e presos e a suas filhas serem estupradas.

A matriarca furiosa reivindica seus direitos de criação, exige que a matéria humana retorne para si e procura alguma maneira de acabar com o mundo em desequilíbrio. A personagem é inserida em uma distopia, na qual as guerrilhas urbanas e rurais expandem uma guerra contra a governança brasileira. E, nesse contexto, ela reflete sobre o que precisa ser mudado se quisermos viver em um país mais justo e menos violento.

“Ela toma as rédeas da existência humana, se colocando como uma figura central da história do Brasil, e não aceita ser musa, escrava, empregada ou ladra. Ela deixa de ser protagonista de uma história silenciada e solitária e se assume como protagonista da nação. Com essa história, a Cia do Despejo, da qual sou cofundadora, valoriza as narrativas das mulheres brasileiras ao dar voz às verdades desagradáveis, às culturas afrodiaspóricas depreciadas e à configuração de uma realidade apocalíptica convergente com os acontecimentos atuais”, comenta a autora. Além de denunciar todos os tipos de atrocidades cometidas contra a população negra desde a colonização, a peça tem a proposta de valorizar as ancestralidades.

“A todo momento são reavivados saberes e costumes ancestrais que chegam a nós através da afrodiáspora e das culturas orais indígenas. Ritos de cura e presenças míticas permeiam a narrativa e seus acontecimentos. A mitologia Iorubá chegou ao Brasil por meio das pessoas escravizadas e sobrevive através de muita resistência, também inevitavelmente mesclada à cultura do colonizador”, acrescenta.


Foto: Duda Viana

Segundo Thaís, a encenação nasceu de uma estética uterina, “gestada coletivamente por uma equipe desejante desse nascimento/estreia/partilha cênica. Plasticamente composta de elementos suspensos, a cenografia e os objetos cênicos de Lui Cobra trazem em suas formas e funcionalidades as possibilidades de jogo entre os atuadores e o local da montagem. São camadas de tecidos, paredes-véus a serem costuradas, defumação flutuante, uma banheira parideira: nosso trono de assentamento para esperança nāo vindoura nesse Brasil-Terra-Chāo”, afirma.

O figurino criado por Duda Viana funciona como uma segunda pele, obedecendo aos tons terrosos do cenário e fazendo uma alegoria das figuras a serem interpretadas. “Um elemento que liga a espacialidade e as vestimentas sāo as máscaras feitas por Cleydson Catarina, que representam as nossas vozes, as vozes das mulheres pretas desse Brasil e a das nossas ancestrais”, completa. SOBRE INGRID ALECRIM - TEXTO Ingrid Alecrim é atriz, dramaturga, roteirista, produtora cultural e maquiadora. É cofundadora da Cia do Despejo, onde atuou como cocriadora, atriz, figurinista e maquiadora do espetáculo "Fêmea" e atualmente é dramaturga e produtora do espetáculo “IRETI”.

Formada como atriz pela SP Escola de Teatro, iniciou sua trajetória artística através do Teatro Vocacional nos anos de 2006 a 2011. Atualmente, cursa licenciatura em Artes Cênicas na ECA/USP. SOBRE THAIS DIAS - DIREÇÃO Artista piracicabana atuante como atriz, figurinista, produtora cultural, arte educadora e diretora artística. Atriz formada pela Escola Livre de Teatro de Santo André-ELT (2009).

Atriz do Grupo de Teatro Forfé, Coletivo Quizumba. Cantora nos rspetáculos de Repertório da Cia Treme Terra; e da Cia Zona Agbara. Atuou como diretora artística das obras "Degredo", em 2015, e em “IRETI”, montagem em andamento em 2021.

Encontra-se em pesquisa para elaboração do figurino dos processos artísticos dos grupos: Zona Agbaras, Coletivo Okan e a Coletiva de Teatro. E em processo criativo temporariamente intitulado: "Camadas da Pele /ou/ Parir a si mesma" onde investiga sua negritude, pele, feminismos e matriarcado. SINOPSE A narrativa é guiada por uma mãe preta inspirada na personificação de Nanã Buruku. Na história ela aparece como a mulher que pariu e levantou com seus braços o Brasil. País que a pretere, mata seus filhos e lhe relega a ingratidão e as sobras.

Vislumbrando este mundo onde suas crianças vivem numa realidade cruel de fome, violência e dor, ela deseja a matéria da criação de volta para si, buscando uma maneira de acabar com um mundo desequilibrado. Nana reivindica seus direitos a uma boca que fala e a mãos que curam e matam. Ela se assume como a terra aberta, pulsando e se preparando para voltar ao início. FICHA TÉCNICA Dramaturgia: Ingrid Alecrim Encenação: Thaís Dias Direção de movimento: Carol Ewaci Intérpretes: Breno Furini, Isamara Castilho e Jennifer Souza concepções luminosas: Carolina Gracindo Composição sonora: Aline Machado Concepção de figurino e costura: Duda Viana Concepção de cenografia e cenotécnica: Lui Cobra Orientação de percussão: Helena Menezes Garcia Orientação de máscaras: Renata Kamla Mascareiro: Cleydson Catarina Fotografia: Duda Viana Artes de divulgação: Afrobela Produção: Ingrid Alecrim Assessoria de Imprensa: Bruno Motta Mello e Verônica Domingues – Agência Fática Este projeto foi contemplado pelo Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais do Município de São Paulo – VAI. IRETI Temporada:

De 13 a 16 de maio - de quinta a domingo, às 20h De 19 de junho a 19 de julho - de sábado a segunda, às 20h Local: canal do YouTube da Cia Mungunzá Ingressos: grátis Duração: 30 minutos Classificação: 16 anos