"B de Beatriz Silveira" vai da comédia aos filmes de terror B para confundir ficção e realidade

A peça se inspirou em filmes como "F for Fake", de Orson Welles e "Cidade dos Sonhos", de David Lynch.


Foto: Alexandre Marchesini


A peça B de Beatriz Silveira vai da comédia aos filmes de terror B para confundir ficção e realidade. A narrativa gira em torno de Beatriz Silveira, figura misteriosa que perturba os ensaios do grupo de atores e interfere na criação das cenas. O texto da peça, criado em conjunto com os atores durante a oficina, tem dramaturgismo do dramaturgo João Mostazo, parceiro de trabalho de Ines Bushatsky, que dirige esta montagem.

Criada a partir da oficina teatral “F de Falso”, ministrada pela atriz e diretora Ines Bushatsky, a peça tem no elenco Alexandre Marchesini, Anna Galli, Beatriz Silveira, Caio Horowicz, Débora Gomes Silvério, Giovana Telles, Henrique Natálio, Tatiana Polistchuk e Zoë Naiman Rozenbaum. Em cena, a interpretação do elenco articula elementos do depoimento, da teatralidade e da performance para contar uma história na qual as linguagens documental e ficcional se confundem.


O espetáculo parte de depoimentos e registros documentais da oficina, que ocorreu de maneira online entre março e abril de 2021, para desenvolver uma narrativa que flerta com o tema do falso, o ponto de partida da pesquisa. “O tema do falso flerta muito com a questão da comédia, na questão dos duplos, da dublagem, dos atos de falsificação, do truque. Nessa esteira, o riso se tornou algo cada vez mais frequente nos ensaios. Essa era uma saída criativa para todos nós ali, tanto para mim quanto para o elenco, trabalhar em uma perspectiva da comédia, da bagaça. Aos poucos isso se misturou com a perspectiva de terror, da assombração e da possessão. A gente procurou encontrar o terror na comédia e a comédia no terror. Enquanto artistas e público, é importante que a gente possa encontrar também o lugar da comédia, diante da situação devastadora que a gente vive no país neste momento. A peça é uma aposta nesse sentido”, comenta a diretora.


A peça tem direção de Ines Bushatsky, diretora de A demência dos touros (2017) e fundadora, em 2014, da Cia. Extemporânea. Para a diretora, trata-se de uma oportunidade de experimentar as fronteiras entre as linguagens do teatro e do cinema, seguindo a pesquisa desenvolvida pela companhia, desta vez com uma nova equipe e elenco, vindos da oficina: “A fronteira entre o teatro e o cinema é algo que eu venho pesquisando com a Cia. Extemporânea há alguns anos. Nesta peça, o trabalho com as duas linguagens foi amplificado pelo fato de que a gente estava criando no Zoom, já com a tela como parte do processo criativo. A gente incorporou a plataforma que estava usando, e procurou ir além dela, para criar a ilusão de que o espectador está assistindo a um filme, criando ilusões de montagem e edição, embora a peça esteja sendo apresentada ao vivo”.

Foto: Bruno Siomi


Tendo como referências os filmes F for Fake, de Orson Welles e Cidade dos sonhos, de David Lynch, a montagem se apropria de recursos do Zoom e do teatro online, bem como da linguagem cinematográfica, para contar uma história de horror cômico na qual está em jogo a contaminação da própria peça por um corpo estranho, que aos poucos passa a comandar o espetáculo. Sem abordar diretamente o tema da pandemia, a peça dialoga com uma questão central na experiência contemporânea, o medo da infecção por um agente externo, que transforma o funcionamento de um corpo. No caso do espetáculo, trata-se do surgimento repentino da misteriosa Beatriz Silveira, que passa a “hackear” o conjunto das cenas previamente preparadas pelos participantes da oficina, jogando-os em uma situação de terror, descontrole e indecisão.

ENCENAÇÃO


Performando as cenas de suas casas, o elenco se alterna na apresentação de depoimentos e das cenas preparadas por cada ator a partir do tema pesquisado pela equipe: a falsificação. Amarram o conjunto das cenas relatos de acontecimentos desconcertantes que teriam ocorrido durante a oficina, referências às figuras do duplo, do doppleganger e do impostor, e jogos de cena envolvendo a duplicação e falsificação da imagem e da voz dos atores, a todo momento divididos entre a representação de personagens ficcionais e a consciência, enquanto atores, de estarem possuídos por uma força estranha que manipula as suas ações e o andamento das cenas. Figurinos, cenários e objetos esdrúxulos aparecem nas cenas, quebrando a visualidade cotidiana com máscaras e maquiagens que jogam o espectador em um universo ao mesmo tempo cômico e de pesadelo. Utilizando as ferramentas da plataforma Zoom, a encenação lança mão de recursos de dublagem para criar um efeito de dissociação entre corpo e voz dos atores, que contribui com a atmosfera desconcertante e magnética do espetáculo. Alternam-se na tela, ainda, cenas performadas pelos atores ao vivo, via Zoom, e cenas previamente gravadas com equipamentos de cinema e câmeras de alta qualidade, que provocam um choque entre as linguagens do cinema e do teatro online.

HISTÓRICO

Em 2014, a diretora Ines Bushatsky fundou, com o dramaturgo João Mostazo, a Cia. Extemporânea de teatro e cinema, com a qual dirigiu a peça A demência dos touros, em 2017. A companhia é responsável pelos espetáculos Fauna fácil de bestas simples (2015, dir. Pedro Massuela), A demência dos touros (2017) e Roda morta – uma farsa psicótica (2018, dir. Clayton Mariano), além do longa-metragem Rompecabezas (dir. Dellani Lima, Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo 2020) e do curta-metragem FALSO FILME (dir. Ines Bushatsky e João Mostazo, Mostra Cipó 2021).


Os filmes e espetáculos criados por Ines Bushatsky, em especial aqueles realizados junto à Cia. Extemporânea, promovem um pastiche dos recursos melodramáticos presentes na indústria cultural, procurando dar conta das anomias sociais a partir de uma forma que incorpore a incompletude, o nonsense, a incoerência, a contradição, sugerindo a utilização da comédia e do humor como veículos de apreensão das principais questões do nosso tempo.

FICHA TÉCNICA

Direção: Ines Bushatsky Elenco: Alexandre Marchesini, Anna Galli, Beatriz Silveira, Caio Horowicz, Débora Gomes Silvério, Giovana Telles, Henrique Natálio, Tatiana Polistchuk e Zoë Naiman Rozenbaum Assistência de direção: Beatriz Silveira, Bruno Conrado , Clara Martins Hermete João Mostazo Dramaturgismo: João Mostazo Co-direção de vídeo: Clara Martins Hermeto Iluminação, Stills e Correção de cor: Bruno Siomi Operação de Zoom: Felipe Aidar Cartaz: Lidia Ganhito Produção de vídeo: Cabograma Produção: Extemporânea Apoio: Pequeno Ato

B de Beatriz Silveira

Temporada: De 10 de Julho a 01 de Agosto

Horário: Sábados às 21h e Domingos às 20h

Onde: Plataforma Zoom

Ingressos: R$ 20,00 (valores alternativos de R$ 5,00, R$ 30,00, R$ 50,00 e R$ 100,00)

Compre aqui.

Capacidade de público: 250 espectadores

Duração: 90 min

Classificação: 14 anos.