Após temporada presencial, "Trava Bruta" estreia online pelo YouTube do CCSP

Espetáculo sobre a transexualidade integra a 6ª Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos.

Foto: Alessandra Haro


Estreia de maneira online, pelo Canal do YouTube do Centro Cultural São Paulo, o espetáculo TRAVA BRUTA, manifesto que parte da experiência transexual da autora Leonarda Glück para propor uma ponte e um embate entre o contexto artístico e a conjuntura política e social brasileira atuais no que se refere ao campo da sexualidade. O trabalho marca as comemorações de 25 anos de carreira da artista e também o seu reencontro com o diretor Gustavo Bitencourt.


O espetáculo fez temporada presencial de sucesso em dezembro de 2021, no palco da sala Jardel Filho, do CCSP, e possui forte relação com a criação imagética, refletida nas fotografias produzidas para o livreto distribuído ao público na temporada presencial, em suas imagens de divulgação e na própria cena. Seguindo esta proposta, articulou-se a ideia de um registro audiovisual que fugisse das filmagens teatrais convencionais. Esta ideia lança um novo olhar a obra, que não se propõe a ‘ignorar’ a presença da câmera, mas ser o reflexo de uma experiência compartilhada entre o teatro e o audiovisual, como vem sendo recorrente desde o início da pandemia.


Com ampla trajetória no campo das artes cênicas brasileiras, Leonarda fundou importantes coletivos nacionais como a Companhia Silenciosa e a Selvática Ações Artísticas e apresentou seus trabalhos em diversos países da Europa e América Latina. Esta é a primeira vez que Leonarda aborda exclusivamente a questão da transexualidade em uma de suas criações. O espetáculo é uma espécie de vertiginoso poema cuja principal metáfora reúne o ato de bloquear e impedir a livre movimentação com a capacidade de brutalidade da natureza humana, sua violência e sua incivilidade. “Como é experimentar um corpo que provoca um misto de repulsa e desejo a um só tempo? O que tem a cultura a ver com a transexualidade? Como é ser uma artista trans no Brasil de 2021? Resposta não há, mas ainda há a poesia. E, mesmo que alquebrado, ainda há o teatro”, diz Leonarda.


A artista conta que começou a escrever o texto para a peça em 2018 em Curitiba, sua cidade natal, antes de se radicar em São Paulo. “Me veio uma possível angústia repentina: a de talvez não ter conseguido em outro momento antes escrever tão intimamente sobre o assunto da transexualidade, e seus efeitos na minha mente e na vida social da qual faço parte”, diz Leonarda, que arrastou por meses a tarefa de terminar o texto.


Foto: Alessandra Haro


Já em 2019, a montagem foi premiada pelo Centro Cultural São Paulo, integrando a 6ª Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos da instituição. Após ter sua estreia suspensa por conta da pandemia, o trabalho foi retomado em 2021 e estreou presencialmente na Sala Jardel Filho. Sobre a pandemia, Glück faz questão de frisar: “A gente entrou no modo catástrofe que meio que está até agora. As pessoas trans ficaram ainda mais vulneráveis do que já eram antes. E elas eram muito. São, no Brasil. Física e psicologicamente.”


A direção da obra, que é produzida pela Pomeiro Gestão Cultural, produtora que realiza a gestão dos projetos de Leonarda, ficou a cargo de Gustavo Bitencourt, parceiro de Glück há mais de 20 anos. Juntos os dois já desenvolveram criações em performance, dança e teatro, com destaque para Valsa Nº 6, montagem do texto de Nelson Rodrigues premiada pela Funarte, feita em 2012 na ocasião do centenário do autor.


Quando foi convidado para dirigir o espetáculo, Gustavo Bitencourt ficou com um pouco de medo. “Porque era um texto que falava muito da experiência dela como mulher trans no Brasil. Onde é que eu ia poder contribuir nisso? O que é que eu sei disso? Mas lendo e relendo, e conversando com ela, fui vendo o quanto esse texto também fala de muitas coisas que dizem respeito a todo mundo, e que era importante que a gente olhasse tanto pro que tem de específico nesse contexto do qual ela fala, quanto pra onde essa história se conecta com outras tantas”. Partindo daí, ele conta que foram entendendo o texto de Trava Bruta como um jeito de falar de coisas que são reais e concretas e nem por isso menos ficcionais.


Foto: Alessandra Haro


Leonarda e Gustavo, então, se encontraram na ideia de ficção, como nos diz o diretor: “Ficção que é o que eu pesquiso, é a minha profissão – como drag queen, que é o que eu faço da vida faz 12 anos - e é uma necessidade básica de qualquer ser humano. Básica como fazer xixi, cocô, comer, tomar água, dormir. Humano prescinde de ficção pra viver, e em diferentes medidas, com diferentes graus de comprometimento e de risco, todo mundo vai dando um jeito de concretizar”.


A ideia de ficção que move a criação reflete-se, em todos os recursos técnicos utilizados na montagem: seja na criação em videoprojeções de Ricardo Kenji ou na trilha original desenvolvida por Jo Mistinguett, estas camadas ficcionais são construídas e destruídas em cena. O mesmo acontece nos figurinos assinados por Fabianna Pescara e Renata Skrobot e no desenho de luz de Wagner Antônio, que cumprem a função de revelar e ocultar alguns dos signos explorados na montagem.


Para Gustavo, o ponto chave da ideia de ficção explorada no trabalho encontra-se no fato de que “algumas ficções são permitidas e outras não. Quando se trata de gênero, as pessoas tendem a ficar muito assustadas”. TRAVA BRUTA desloca o seu olhar para um dos principais dilemas culturais, políticos e sociais de hoje: a ideia da diversidade. Neste caso, ela se refere muito mais ao lugar ocupado pelas pessoas trans na sociedade brasileira e mundial. Leonarda é enfática: “Chego aqui com a certeza de que o herói macho branco, heterossexual, cristão e suas ideias precisam urgentemente ser substituídos, trocados ou mesmo revisitados por outros ângulos. Estão chatos. De alguns eu ainda gosto muito, mas estão chatos.”


FICHA TÉCNICA

Criação, texto e interpretação: Leonarda Glück

Direção: Gustavo Bitencourt

Trilha original: Jo Mistinguett

Direção de produção: Igor Augustho

Luz: Wagner Antônio

Assistente de iluminação: Dimitri Luppi

Criação em vídeo e projeções: Ricardo Kenji

Figurino: Fabianna Pescara e Renata Skrobot

Design gráfico e identidade visual: Pablito Kucarz

Ilustração: André Costa

Fotografias e Registro Audiovisual: Alessandra Haro

Assessoria de imprensa: Pombo Correio (Douglas Pichetti e Helô Cintra)

Assessoria em marketing digital: Platea Comunicação e Arte

Assessoria jurídica e contábil: Ivanes Mattos

Produção: Pomeiro Gestão Cultural

Realização: Pomeiro Gestão Cultural, Centro Cultural São Paulo e Secretaria Municipal de Cultura.


TRAVA BRUTA


Temporada: De 24 a 30 de Janeiro

Horário: às 20h

Local: Canal do YouTube do Centro Cultural São Paulo.

Ingressos: Gratuito | Reserve aqui

Classificação: 18 anos

Duração: 60 minutos