"Apátridas" reflete sobre os diversos sentidos das crises existenciais na atualidade

Montagem multimídia é inspirada em personagens como Kassandra, Hécuba, Prometeu e Hércules

Foto: Antônio Simas Barbosa


APÁTRIDAS reafirma a vocação da Companhia Nova de Teatro para a criação de novas linguagens e dá continuidade à pesquisa e ao desenvolvimento de atividades e espetáculos com enfoque em temas emergentes – os dramas contemporâneos – propondo novos modos de produção e de pensamento do fazer teatral. Montagem marca os 20 anos de trajetória do grupo e foi contemplada pela Lei Federal Aldir Blanc e Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa – Edital Proac Expresso Lab.


Com direção de Lenerson Polonini e dramaturgia de Carina Casuscelli, que também está em cena ao lado de Jacqueline Durans e dos atores Miguel Kalahary e Isidro Sanene, ambos angolanos residentes em São Paulo, APÁTRIDAS é dividido em quatro solos que se interconectam. O espetáculo mergulha na psiquê de personagens míticas e fundamentais da antiguidade – Kassandra, Hécuba, Prometeu e Hércules – deslocando-as para as zonas de conflitos e rotas de peregrinação migratória; lugares de passagem para o desconhecido.


Para o diretor Lenerson Polonini as quatro figuras apresentam relações de poder, discórdia, ódio e injustiça, que dão lugar a vinganças cruéis e a destinos inevitavelmente trágicos. “As tragédias gregas são um território muito rico e por meio do seu universo nos deparamos com os conflitos éticos e morais e com as relações de poder do ser humano. Em APÁTRIDAS os personagens tencionam questões sobre identidade e não pertencimento em um teatro de vozes dialogando com o tempo”, explica ele.


Foto: Antônio Simas Barbosa


12 milhões de apátridas no mundo

Segundo a ONU – Organização das Nações Unidas existem hoje no mundo cerca de 12 milhões de apátridas. A situação limite de não pertencer a um lugar e não ter referências identitárias perpassa os quatro personagens da montagem, que apresentam questionamentos além do ser social, instigando a reflexão a respeito do que define o ser humano.


A dramaturga e atriz Carina Casuscelli pontua que a luta do agora é se reinventar em outras terras, forjar uma nova identidade, coexistir em campo minado e fazer dele brotar força, esperança, sonhos. “Mais do que oferecer respostas acerca das nossas crises, APÁTRIDAS busca questionar e incitar o público para a reflexão acerca do nosso tempo, abrindo espaços para o diálogo sobre a crise global, econômica e, sobretudo, a crise humana, considerando, inclusive, este período pandêmico.”


A encenação de Lenerson Polonini buscará, na singularidade dos fragmentos de textos gregos filtrados na construção dramatúrgica de Carina Casuscelli, a criação de pontes e conexões entre a realidade brasileira e mundial, com apoio em um profundo trabalho de preparação dos intérpretes, colocando-os como porta-vozes de tantos gritos calados.


Já o espaço cênico traz vídeo projeções de Armando Lima tornando a caixa preta como não-lugar e ambiente em transformação. A iluminação e figurinos, aliados a trilha sonora assinada pelo renomado músico experimental Wilson Sukorski buscam potencializar e amplificar as imagens criadas.


Foto: Antônio Simas Barbosa


Quatro solos

Estruturado em quatro solos-movimentos, o espetáculo revisita os mitos e os personagens representam as inúmeras vozes refugiadas e apátridas, que são obrigados a seguir numa travessia rumo ao desconhecido na tentativa de mudar os rumos de suas vidas.


No decorrer da história, mulheres são usadas e abusadas por homens em alta posição ou por controladores emocionais das mais diversas formas. Como Kassandra, a que vê além do tempo e é desacreditada por se negar a entregar o seu corpo para o deus Apolo, que a amaldiçoou. Na montagem, Kassandra (Carina Casuscelli) representa os povos indígenas e prevê a destruição do seu povo, das florestas e a tomada de seu território. Hécuba (Jacqueline Durans), a última rainha sobrevivente ao massacre que a tornou escrava de seus inimigos, tinha sonhos premonitórios que se concretizavam. Em APÁTRIDAS, se encontra na condição de refugiada, em meio a Amazônia devastada, com suas memórias em ruínas.


Prometeu é considerado o criador e defensor da humanidade, por ter roubado o fogo dos deuses e por doá-lo aos homens. O monólogo nos mostra um Prometeu (Isidro Sanene) negro, africano, que evoca mitos de religiões de matriz africana e clama por justiça. Um jovem, ativista, tentando atravessar a fronteira de forma ilegal, portando uma mochila com passaportes falsos para ajudar outros compatriotas a fugir da guerra. Já o semideus Hércules tem poderes humanos e divinos, possuindo uma força descomunal, o que o tornou célebre por sua bravura e inteligência. Na peça, Hércules (Miguel Kalahary) é um africano que capitania a travessia em uma embarcação precária juntamente com seus compatriotas, cruzando territórios, atravessando fronteiras pelo mar.


Foto: Antônio Simas Barbosa


Ficha Técnica

Direção – Lenerson Polonini. Dramaturgia – Carina Casuscelli. Elenco – Carina Casuscelli, Jacqueline Durans, Miguel Kalahary e Isidro Sanene. Figurinos – Carina Casuscelli. Assistente de figurino – Gustavo Werner. Iluminação – Lenerson Polonini. Trilha sonora – Wilson Sukorski. Vídeos – Armando Lima. Operação de som – Felipe Moraes. Operação de luz – Verônica Castro. Operação de imagem – Téo Ponciano. Colaboração dramatúrgica (parte 1) – Eduardo Brito. Assessoria de imprensa – Nossa Senhora da Pauta. Fotos – Antônio Simas Barbosa. Produção – Lenerson Polonini – Companhia Nova de Teatro.


APÁTRIDAS

Temporada: Até 28 de Novembro

Horário: Sextas e Sábados às 21h | Domingos às 19h

Local: Teatro Arthur Azevedo - Av. Paes de Barros, 955 – Mooca

Ingressos: Gratuitos – Retirada com uma hora de antecedência na bilheteria do Teatro

Duração: 60 min

Classificação: 16 anos