Peça reflete sobre o direito de existir e amor de uma mulher trans


Com texto vencedor do Prêmio Ariano Suassuna de Dramaturgia, a nova montagem da Cia. Paradóxos, "Desculpe o Atraso, Eu Não Queria Vir", estreou em São Paulo. O espetáculo fala de amor, superação e principalmente do direito de existir,em uma sociedade cada vez mais excludente e conservadora. Confira a entrevista completa com o elenco:

Igor: Eu sou Igor Ludac e eu faço o "Homem do Passado", nessa história que trata do enfrentamento de uma mulher Trans ao longo de sua vida.

Alìcia: Eu sou Alicia dos Anjos e eu interpreto a "Mulher do Presente". E eu fico aqui no meio desses dois, tomando um pouco de chumbo de cada lado (risos). Da "Mulher do Futuro" não muito. O conflito maior é com o "Homem do Passado", tentando entendê-lo, tentando entender a minha personagem.

Tatiana: Eu sou a Tatiana Montagnolli e eu faço a "Mulher do Futuro. E essa mulher volta para a casa onde ela passou sua infância, sua juventude. E ela volta para rever e fazer as pazes com seu passado. E ela encontra com essas duas "partes" dela, esse menino , essa mulher que vai se transformando ao longo do tempo até que ela surja plena, como ela surge no espetáculo. É um passeio bastante poético, as vezes doloroso, as vezes engraçado, mas que trata com muito carinho a questão do transgênero, que é tão urgente. Não somente para as pessoas que vivem essa situação, mas para toda a sociedade. Saber que o diferente é tão humano quanto a gente. É um privilégio pra mim fazer parte dessa história. É a primeira montagem desse espetáculo, e a gente espera que ele possa chegar em muitos lugares e em muitas pessoas. É um grande prazer estar aqui com esses dois queridos (Igor e Alicia)

Como foi o convite para vocês participarem do espetáculo?

Tatiana: Nós fizemos uma leitura. Foi um ciclo de leituras feita no ano passado pela Cia. Paradóxos, da qual fazemos parte e foram 10 textos...

Igor: Exato, foram 10 textos selecionados para o 1º Festival Nacional Texto em Cena, produzido pela Cia. Paradóxos,sem incentivo de nenhuma lei de apoio. E conseguimos ter um público muito fiel ao longo das 10 leituras, na Oficina Oswald de Andrade. E esse festival contemplaria um texto para que fosse feito a montagem. E foi o texto do Cleyton Cabral, maravilhoso texto e estamos aqui para essa finalização.

Tatiana: É uma comemoração, realmente, desse festival. E eu acho que no meio de tantos bons textos , foi uma ótima escolha. Mas somos suspeitos para falar. (risos)

Igor: A leitura dramática, inclusive, foi feita pela Tati, pela Alicia e por mim. E temos o prazer de estar novamente juntos na montagem. A Alicia foi convidada no ano passado e agora faz parte da Cia. Paradóxos, e estamos muito contentes de levar essa questão. Porque somos todos iguais e as diferenças são bem-vindas, só que vivemos em um tempo que temos que dizer isso às pessoas, mostrar isso à elas. A vontade que nós temos é de dar um chacoalhão, mas isso é impossível, então é com a arte, é com a poesia, mas é com a palavra bem colocada e a palavra que tem que ser dita, com urgência.

Alìcia: Um curiosidade muito interessante sobre o texto é que no dia em que nós fizemos a leitura, foi o mesmo dia ele foi premiado com o Prêmio Ariano Suassuna de Dramaturgia. Chegar pra fazer a leitura e receber essa notícia! É um texto muito bonito, muito importante e reflexivo. E eu enquanto artista Trans, falo da necessidade de textos tão importantes quanto. Porque a gente vive em uma sociedade, como a Tati mencionou, em que o ser diferente é uma coisa que incomoda. Mas não basta só incomodar, ele tem que ser eliminado de alguma forma. Seja das formas cruéis que muitas Trans e Travestis são mortas na sociedade. Mas não é assim que funciona. Temos sim, que gerar uma reflexão para que esse fato possa mudar, para entender que o ser diferente não é uma coisa de outro mundo, ele é apenas diferente do comum, diferente dos padrões que a sociedade nos impõe. E temos o direito de ir e vir, o direito de viver tranquilamente. E esse texto, embora fale da transexualidade, ele serve também para uma pessoa cis, por exemplo. Por que não visitar o seu passado? Por que não tentar se reconciliar com ele? Tentar entender muitas situações. É um texto muito poético, muito bonito. E agora está sendo a primeira montagem, temos esperanças que vamos viajar com ele pelo Brasil, pelo Nordeste , que é onde a cultura, principalmente o machismo e o patriarcal impera e são esses lugares que a gente tem que chegar. Eu acredito muito que não é através da arrogância, da violência, que a gente vai fazer as pessoas mudarem seu jeito de pensar. É através da educação, da reflexão. E esse é o nosso papel como artista, gerar essa reflexão e através da arte mudar a opinião, o pensamento.

Igor: Que seja uma luz nessa intolerância, nessa ignorância gigante que a gente vê em todos os cantos.

Como foi a construção de cada personagem?

Igor: Eu faço o "Homem do Passado" que é....a infância, mas não literalmente. É uma peça muito onírica, muito imagética, muito poética, então, essa infância é quase que um espaço permitido para a existência desse personagem naquele momento. Então, é um lugar de entrega, mas também de fuga. Porque desde criança, as pessoas que nascem diferente sofrem um bombardeio quase que diário. E isso começa lá atrás, começa no núcleo familiar. Então, eu comecei a trabalhar esse personagem, olhando muito pra mim, pro meu quintal, e trouxe muita coisa de lá. Porque somo todos iguais, todos tivemos momentos difíceis de enfrentamento, desde de criança, de inadequação. O que é a adolescência? É um momento de inadequação para qualquer um. Então, eu fui buscar na minha infância, na segunda infância basicamente, essas reflexões e espero que tenha conseguido trazer o necessário para esse personagem que é muito rico.

Alìcia: A construção da minha personagem foi bem difícil, pelo fato de eu ser Trans e ter tido uma vivencia totalmente diferente de muitas meninas, diferente da minha personagem. Meus pais se separaram quando eu tinha 02 anos, então eu não sofri tanto com esse impacto pelo fato de ser muito criança. E a minha personagem tem esse apego, tanto com o pai quanto coma mãe, essa ligação, e isso a acompanha ao longo da vida. E como se não bastasse, esse conflito de separação dos pais, ela tem que visitar o passado, almejando o futuro, mas sabendo que pra chegar lá ela tem que resolver o que foi deixado pra trás. E foi um trabalho muito intenso, simplesmente por esta questão: a minha transição ter sido "tranquila", de certa forma, em comparação à muitas meninas. O máximo que eu sofri foram alguns comentários , coisas que meu pai me falava. Então, eu acabei tendo esse suporte, hoje eu tenho apoio tanto do meu pai quanto da minha mãe, o que muitas meninas não tem. E uma coisa que me ajudou muito foi revisitar esses lugares que eu já havia esquecido e tentar me imaginar, me colocar no lugar dessas meninas que foram expulsas de casa, que foram parar no meio da prostituição contra a própria vontade. E tentar sobreviver nessa sociedade que nos impõe, tenta nos leva para o caminho do tipo" Você é diferente, não tem direito a um trabalho, não tem direito de chegar a certo lugar". E muitas meninas tiveram que batalhar por isso. E a minha personagem tem esse conflito, nessa questão de ir ao passado para tentar se resolver, desejando um futuro, tentando encontrar um caminho, e quando ela acha que solucionou um problema, ele cresce. E uma coisa que fez muita diferença para nós foi uma experiência que tivemos quando fizemos a pré-estreia do espetáculo para a Casa Florescer, que abriga pessoas Trans e Travestis. Eu já havia visito a casa antes, mas quando elas vieram aqui e a gente vê todas as meninas se identificando de alguma forma, algumas muito emocionadas. Elas vieram e falaram pra gente: "É realmente assim, esse é o nosso primeiro conflito na vida". Tentar se auto-conhecer e muitas vezes se recusar, dizendo "eu não sou assim, eu não sou desse jeito". Esse é o primeiro embate que a pessoa tem na vida. E foi uma experiência muito enriquecedora. A presença delas foi a cereja do bolo pra concluir essa criação dessa personagem.

Tatiana: A "Mulher do Futuro" vem com mais tranquilidade, pelo fato de nós três sermos um só, um ser só. Me ajudou bastante o material trazido pelos meus colegas. A troca que nós tivemos, o que foi essa infância, o que se descobrir mulher, descobrir um lado feminino afloradíssimo. E essa "Mulher do Futuro" é aquela mulher que já superou, que está plena, que está em um patamar, onde todos esses movimentos, essa violência, os xingamentos, a intolerância, o preconceito ficou pra trás. Ela consegue. A nossa grande esperança é de colocar essa pessoa realizada, feliz. Pronta, plena. Então, todo esse material que foi vivido pelo Igor, pela Alicia, eu fui me alimentando dele, para poder fazer um caldeirão, uma poção mágica, para que ela se transformasse numa mulher plena. Não importa se ela tem ou não um pênis, ela é uma mulher. Então, eu tento fazer com a maior dignidade, o maior carinho, o maior respeito. Porque quem vive essa dor...Eu procurei sentir essa emoção, para poder dar vida a essa mulher, que já deixou pra trás e que está plena, que está segura e que está feliz.

Igor: E quem sabe com um olhar assim: "Como será essa 'Mulher do Futuro' realmente?". A despeito de tanta intolerância, tanto ódio, tanta discriminação, tanta crueldade, tanta violência. Ser possível vislumbrar essa "Mulher do Futuro", que esteja acima de tudo, de todo esse grande mal que acomete.

Tatiana: Ela é uma sobrevivente, como todos nós. Ela tem que ser. Não é possível que a gente passe por tantas coisas.... O nosso objetivo é ser feliz. É isso que a gente quer, qualquer um de nós. Então, eu acho que deixa uma mensagem muito linda. Você pode passar por tudo, mas você é um sobrevivente, uma sobrevivente. E a resiliência, a vontade de querer ser feliz e pleno não tem erro.

Elenco, diretores e autor no dia da estreia.

"DESCULPE O ATRASO, EU NÃO QUERIA VIR"

Texto: Cleyton Cabral Direção: Fábio Mráz e Mário Goes Elenco: Alìcia dos Anjos, Igor Ludac e Tatiana Montagnolli Preparador Corporal: Edson Simões Figurinos: Willian Gama Iluminação: Geórgia Ramos

SERVIÇO Local: Jardim do Espaço Braapa End.: R. Valdir Niemeyer, 58 - Sumaré Temporada: de 25 de Abril a 30 de Maio Horários: Quintas, às 21h (*Em caso de chuva não haverá espetáculo) Ingressos: Pague quanto puder (*Ingresso por ordem de chegada. Sujeito a lotação) Classificação: 14 anos

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